A
palavra diálogo é composta de duas
palavras gregas – “dia”, que significa “através de” e de “logos” que pode ser
entendida como “significado, palavra, expressão, verbo, fala, relação”.
Desde
o 6º. ano refletimos sobre a necessidade do diálogo e a importância que ele tem sobre as relações humanas. É através
dele que ampliamos a percepção sobre a realidade e nos tornamos cada vez mais
humanos.
Sabemos
dialogar bem pouco, pois sempre estamos “armados” de nossas convicções e, geralmente,
não aceitamos opiniões contrárias.
A
característica básica do diálogo é saber ouvir despojadamente, isto é, sem a
pretensão de dominar a verdade. O diálogo não é doutrinador, é um espaço
democrático onde as ideias podem fluir livremente e acrescentar sentido às
nossas razões.
O
texto abaixo vai complementar a ideia
sobre a importância do diálogo e como as discordâncias podem acrescentar novos
horizontes à nossa percepção.
As
discordâncias
" [...] Se fôssemos
mais flexíveis com as discordâncias, logo destruiríamos a soberba de que somos
os donos da verdade e de que ninguém sabe mais do que nós. Não deveria ser tão
estranho alguém discordar de nós, até porque ninguém é obrigado a concordar com
tudo nem com todos. Ainda bem que o concordar é relativo à força da persuasão!
Há de se convencer alguém a concordar com você, e isso não é tão simples assim.
Posso até conviver com você, mas nunca estou obrigado a concordar com seus
pensamentos.
Volta e meia, algumas pessoas se aproximam de nós – pelo menos eu já passei por
experiência parecida – para dar uma opinião esperando apenas uma confirmação
positiva acerca do assunto. Ou seja, o desejo de autoafirmação das pessoas é
tão forte que o diálogo crítico e autêntico acaba se banalizando ou mesmo
ficando em segundo plano. Muitas vezes, sufocamos o diálogo em virtude de uma
acomodação simples e passiva às opiniões alheias, quando, na verdade, segundo Paulo Freire, o diálogo “é uma
relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade
(Jaspers). Nutre-se de amor,
de humanidade, de esperança, de fé, de confiança. Por isso, somente o diálogo
comunica. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim, com amor, com
esperança, com fé no próximo, se fazem críticos na procura de algo e se produz
uma relação de 'empatia' entre ambos”(FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. 12ª
ed. São Paulo: Paz e Terra, p. 39).
Somente uma educação com base na ironia socrática ou na humildade pode nos levar
a descobrir o valor das discordâncias. Discordar
eleva a discussão ao grau de maturidade intelectual em que ambos estão
suscetíveis a mudar de opinião. Discordar, com isso, tira o ranço de autoridade
que há no diálogo entre duas pessoas que se dizem civilizadas. Discordar
fortalece os argumentos que se pretendem afirmar. Discordar nos permite ir além
do óbvio. Discordar põe à prova algumas verdades estabelecidas. Discordar
quebra o gelo num grupo, numa palestra chata ou numa reunião burocrática. Discordar
é também saber aceitar as discordâncias e contradições no seu discurso, até
porque ninguém está totalmente certo nem totalmente errado. Aliás, quando
discordamos, aprendemos que não somos suficientes, e sim necessários.
[...]“A educação crítica considera os homens como
seres em devir, como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmente
inacabada e juntamente com ela. Por oposição a outros animais, que são
inacabados mas não históricos, os homens sabem-se incompletos. Os homens têm
consciência de que são incompletos, e assim, nesse estar inacabados e na
consciência que disso têm, encontram-se as raízes mesmas da educação como
fenômeno puramente humano. O caráter inacabado dos homens e o caráter evolutivo
da realidade exigem que a educação seja 'uma atividade contínua'. A educação é,
deste modo, continuamente refeita pela práxis”(FREIRE, Paulo. Conscientização:
teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire.
São Paulo: Cortez & Morais, 1979, p. 42).
É
essa sensação de inacabamento que resulta das discordâncias. Daí, serem elas
tão importantes para a transformação dos valores e do modo como é visto o
mundo, do modo como se contam as histórias, do modo como se falam novas coisas.
Discordar, minha gente, não é ofender
ninguém, mas falar de um outro modo o que ninguém, talvez, tenha falado,
permitir-se ao risco de pensar novamente o que já foi pensado."
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros
Silva
Especialista em Metafísica,
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Estudos
Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.